Dossiê: As recentes mudanças políticas nos governos da América do Sul e seus reflexos na política externa regional

2022-12-13

Nas últimas três décadas a América do Sul apresentou diferentes tendências político-ideológicas dos seus governos. De forma pendular, os países tenderam entre direita e esquerda e tiveram sua ação internacional influenciada por essa flutuação ideológica.

 Com o fim da Guerra Fria, o neoliberalismo foi tendência predominante na América Latina, com destaque para o subcontinente sul-americano. Governos de direita e centro-direita predominaram durante os anos 1990 nos países da região e tiveram suas políticas externas predominantemente voltadas à globalização e suas promessas liberais. Pari passu ao processo de democratização da vida política e social experimentado pela região, a liberalização da economia se apresentava, ao mesmo tempo, como a outra face da moeda e como um imperativo histórico e estrutural, dada a emergência do capitalismo liberal como o modelo hegemônico após o colapso do bloco soviético.

A despeito da hegemonia da macroeconomia ortodoxa durante a década de 1990, as crises econômicas e o crítico saldo social legado pela hegemonia dos postulados neoliberais promoveram um descontentamento generalizado com a colocação do mercado enquanto o eixo primordial (e, em alguns casos, praticamente o único) do desenvolvimento econômico e social. Nos anos 2000, a chamada "onda rosa" (ou pós-neoliberalismo) trouxe um ressurgimento da esquerda latino-americana, com destaque na América do Sul. Com poucas exceções, a década foi marcada por uma convergência de mentalidades de governos de esquerda e centro-esquerda na região que reverberou diretamente na construção das suas políticas externas: intensificação das relações diplomáticas, maior comércio intrarregional e iniciativas de integração como a IRRSA, a UNASUL e a CELAC foram costuradas.

Entretanto, após uma década da onda rosa, forças políticas de direita e extrema direita voltam a se reestabelecer no poder justamente com o fortalecimento do conservadorismo em outros centros de poder mundial como EUA e Reino Unido. Bolsonaro no Brasil, Macri na Argentina, Piñera no Chile, Vizcarra no Peru e Iván Duque na Colômbia são exemplos de ascensão das novas direitas na região. Como afirmou a historiadora Lilia Schwarcz, o século XXI começou após a pandemia do COVID-19 no início de 2020. Entre um dos tantos impactos da pandemia, podemos destacar o questionamento popular sobre o modelo de governo de seus Estados, principalmente quando se trata de países com frágil estrutura social. Nesse movimento, governos de direita e centro direita na América do Sul sofrem abalos para continuar no poder e uma nova onda rosa tem ocupado o espaço político sul-americano.

Nesses movimentos, as relações bilaterais, multilaterais e intrarregionais sofreram novas mudanças e ajustes. A presente proposta de dossiê temático tem como foco a reunião de trabalhos que analisem as mudanças político-ideológicas ocorridas nos governos da América do Sul nos últimos anos, com destaque ao período pandêmico, e seus possíveis reflexos na política externa dos países da região.